sábado, 1 de dezembro de 2012

As alegorias e o sarcasmo do sr. Buñuel


                                        
O Cineclube Cine em Debate exibiu na quinta-feira passada o filme O discreto charme da burguesia do cineasta Luis Buñuel e contou com a presença do cineasta e documentarista Carlos Pronzato, mais um porteño radicado na Bahia, e dos professores da F2J, André Holanda e Augusto Sá. O filme encerra as atividades do Cine em Debate neste semestre e foi apresentado como contribuição de um dos principais realizadores do surrealismo no cinema, Buñuel.

Dedicado a resgatar e discutir alguns dos principais movimentos cinematográficos no século XX, o Cineclube Cine em Debate apresentou, durante este semestre, filmes vinculados ao Cinema Novo (Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos), à Nouvelle Vague (Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais), ao Neorealismo Italiano (Ladrões de bicicleta, de Vittorio De Sica), finalizando com o Surrealismo na obra do controverso Buñuel.

O cineasta começou sua vida ligada ao cinema, nos anos de 1920, na Espanha, fundando um cineclube. Em 1929, dirige o filme Um cão andaluz, roteiro escrito em parceria com o pintor Salvador Dalí, e A idade do ouro (1930), também fruto da mesma parceria, filmes incluídos na lista dos que são considerados como aqueles que implantaram o Surrealismo no cinema.

De forte personalidade anticlerical, a quem se atribuiu frases como “sou ateu graças a Deus” ou “a Igreja traiu Cristo”, Buñuel atacou o cinismo e a hipocrisia da igreja (em O discreto charme ... o bispo mata com um tiro na cabeça o moribundo a quem acabara de dar a extrema-unção) e do fascismo (no mesmo filme, o embaixador liberta a jovem revolucionária, sob um discurso humanista e piedoso, enquanto, da janela, acena para que seus asseclas sequestrem e matem a mesma jovem). Para ele, Igreja e fascismo andavam de mãos dadas.

Ao lado de outros cineastas, Buñuel foi um crítico mordaz da burguesia. Em O discreto charme ..., Buñuel, através de situações surreais e oníricas, crítica a falta de perspectiva de classe da burguesia e o vazio existencial de cada um dos personagens, apresentando um jantar que nunca se realiza (depois de várias tentativas, ao final, os personagens são mortos à mesa, sem conseguirem jantar) e uma estrada que não chega a lugar algum (novamente, os personagens vagueiam, numa estrada reta cujo horizonte aponta para o nada).

Resta-nos de Buñuel a lapidar frase de Glauber Rocha, escrita em 1962, quando ainda era um jovem crítico de cinema na Bahia, antes, portanto, da sua fama internacional como cineasta, alcançada com o filme Deus e o diabo na terra do sol: “O último maldito, Buñuel não terá seguidores!”.

Um fato a destacar na sessão foi a evasão de estudantes, acima da média, durante a exibição do filme. Buñuel não é mesmo um cineasta didático, costumava confundir a direita e a esquerda, e nem o Cine em Debate é um Cineclube voltado para o cinema mainstream. Ao contrário, nosso objetivo sempre foi e continuará sendo a formação de plateias para o cinema que traga contribuições revolucionárias à estética e à linguagem cinematográficas, bem como aos temas sociais e políticos.

 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Programação de novembro


O Cineclube Cine em Debate apresenta o cineasta espanhol, naturalizado mexicano, um dos principais líderes do movimento Surrealista no cinema, em um clássico do cinema mundial.


Filme: O discreto charme da burguesia
Diretor: Luis Buñuel
Data: 29/nov Hora: 19h.
Local: Auditório Cefas Jatobá

                             Debate:

Debatedores: Carlos Pronzato (cineasta argentino)
                       Prof. André Holanda (F2J)
Mediador:       Prof. Augusto Sá Oliveira (F2J)



Aberto ao público – Entrada franca.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

D E B A T E :

LADRÕES DE BICICLETA

O Cineclube Cine em Debate apresenta dia 23 de outubro (3ª feira), às 19h, no auditório Cefas Jatobá, na Faculdade 2 de Julho, o filme Ladrões de bicicleta, de Vittorio De Sica, clássico do neorealismo italiano, de 1948. Em seguida, será aberto um debate entre a mesa e o público. A mesa contará com a presença das professoras Ana Carolina Castellucio e Daniela Souza como debatedoras e do professor Augusto Sá Oliveira como mediador. Esperamos que o debate presencial possa prosseguir virtualmente neste blog com comentários e sugestões do público.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cineclube Cine em Debate

Apresenta:

Ladrões de bicicleta


O Cineclube Cine em Debate apresentará no dia 23 de outubro próximo (terça-feira), às 19h, no auditório Cefas Jatobá da Faculdade 2 de Julho, o longa-metragem Ladrões de bicicleta, (Ladri di biciclette) produção italiana (1948), do diretor Vittorio De Sica. O filme é um dos clássicos do Neorealismo italiano, nova tendência do cinema na Itália pós IIª Guerra Mundial (1939-1945), quando a economia do país se encontrava arrasada. Vivendo uma forte crise, com elevadas taxas de desemprego, a Itália era um país em estado de desespero e depressão coletiva. Nestas circunstâncias, muitos operários que tinham qualificações tradicionais não conseguiam encontrar colocação no mercado de trabalho porque o setor mais dinâmico da economia requeria qualificações modernas. Neste cenário de desesperança, o operário Ricci, personagem central da trama de De Sica, está desempregado há dois anos e suas expectativas são mínimas, quando é convidado a ocupar a vaga de colador de cartazes dos filmes de Hollywood, a “fábrica de sonhos”, cuja sanha expansionista, no mundo real, avançava sobre o território europeu no pós-guerra, mesmo naqueles países que tradicionalmente tinham uma indústria cinematográfica consolidada como a França, Itália, Alemanha e Inglaterra. Para assumir a vaga de emprego, Ricci precisava ter uma bicicleta, um instrumento de trabalho para realizar a tarefa de colar de cartazes, mas ele não tinha. Desesperado com a possibilidade de perder a vaga, Ricci afirma, perante o funcionário do governo, possuir bicicleta. E a consegue com muito esforço. Ao ter sua bicicleta roubada, Ricci perde o seu equipamento de trabalho e a possibilidade de ser um trabalhador, de ter emprego e salário, condição sine qua non para quem vive do trabalho, isto é, da venda de sua mercadoria “força de trabalho”, na sociedade capitalista. Este é o calvário que terá que enfrentar Ricci. Através dele, De Sica coloca o espectador diante da tragédia humana, a impossibilidade de sobrevivência numa sociedade capitalista dilacerada pela guerra.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Leituras cinematográficas


O Prof. Dr. Augusto Sá Oliveira estará ministrando o curso de extensão "Leituras cinematográficas: Estética e linguagem do cinema".
Informações completas e inscrições podem ser obtidas através do site www.f2j.edu.br e do telefone 3114.3409 (falar com Paula Reis).

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos

Vidas secas (1963), do cineasta brasileiro Nelson Pereira dos Santos, adaptado do romance homônimo de Graciliano Ramos (1938) foi o filme de abertura da programação do Cineclube Cine em Debate este semestre. A sessão aconteceu dia 29/agosto (4ª feira), às 19h, no auditório Cefas Jatobá da Faculdade 2 de Julho. Com o auditório repleto de estudantes e professores dos cursos de Comunicação Social e Administração, à exibição de Vidas secas seguiu-se o debate sobre o filme com a mesa formada pelos debatedores prof. André Holanda e profa. Eliéte Santos, e o mediador prof. Augusto Sá Oliveira. Vidas secas, considerado um dos filmes fundadores do Cinema Novo, juntamente com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Os Fuzis, de Ruy Guerra, abre uma Programação que é dedicada a alguns dos principais movimentos do cinema no século XX, tais como a Nouvelle Vague, o Neorrealismo italiano, o Surrealismo. Em setembro, um filme de destaque da Nouvelle Vague será apresentado. Aguardem!





quinta-feira, 13 de maio de 2010

Escritos sobre Cinema

Por André Setaro

Comentarista cinematográfico desde agosto de 1974, no jornal soteropolitano Tribuna da Bahia (há, portanto, 36 anos), com uma coluna diária durante duas décadas (até 1994), entre diversas colaborações esparsas em outros jornais e revistas, há cerca de cinco anos, incentivado pelo amigo e escritor Carlos Ribeiro, resolvi fazer uma triagem de meus artigos para uma eventual publicação em livro. A garimpagem foi árdua e do resultado da pesquisa saiu este Escritos sobre Cinema - Trilogia de um tempo crítico, em três volumes. A edição é da Azougue (Rio de Janeiro) em parceria com a Edufba (Editora da Universidade Federal da Bahia), mas todo o projeto gráfico é de autoria desta última. A Azougue, além da impressão, ficou responsável pela distribuição dos livros nas livrarias das principais capitais brasileiras.

Com exceção de uma parte do terceiro volume, Introdução ao cinema, que é uma versão revista e ampliada dos dois primeiros capítulos de minha dissertação de mestrado, o que restou são escritos publicados na Tribuna da Bahia, no extinto Suplemento Cultural de A Tarde, na revista eletrônica Terra Magazine. A maioria, no entanto, faz parte do acervo da Tribuna.

Em 1994, constatando que os filmes lançados no mercado exibidor já não me motivavam mais a fazer um acompanhamento diário, limitei-me a escrever apenas uma coluna num dia específico da semana. A infantilização temática era a tônica dos filmes apresentados no circuito exibidor. E os grandes diretores do cinema americano estavam já mortos ou aposentados. E, nesta época, somente existia uma sala dita alternativa na cidade: a Sala Walter da Silveira. A maioria das obras cinematográficas importantes, principalmente as oriundas da Europa, ficavam restritas ao eixo Rio-São Paulo. A partir do alvorecer dos anos 2000, com a entrada em cena da Sala de Arte do Bahiano, o circuito alternativo tomou novos rumos e se multiplicou, dando aos cinéfilos baianos um leque de opções mais abrangente.

Escritos sobre Cinema - Trilogia de um tempo crítico se divide, portanto em três volumes. No primeiro, depoimentos e comentários de filmes e artigos sobre diretores, no segundo, textos sobre o cinema baiano e as pessoas que o fazem realidade, e, no terceiro, escritos diversos, alguma reflexão sobre a linguagem e a estética cinematográficas, e um texto que procura fazer uma pequena introdução à arte do filme.

Tive a honra de ter como autor do prefácio o excelente crítico da Folha de São Paulo Inácio Araújo, que, com muita gentileza e boa vontade, acolheu com certa ênfase os escritos que lhe foram dados a ler.

Cinema – Sessão Especial!


O Cineclube Cine em Debate, vinculado ao Colegiado do curso de Comunicação Social da Faculdade 2 de Julho, realiza no próximo dia 17 (segunda-feira) uma sessão especial. O evento começa às 18h com o relançamento da obra Escritos sobre Cinema – Trilogia de um tempo crítico, do professor e crítico de cinema André Setaro, com noite de autógrafos na sala dos professores do referido curso. Às 19h, a atividade prossegue com a exibição do documentário A batalha do Chile: a insurreição da burguesia, do diretor chileno Patricio Guzmán, no auditório Cefas Jatobá. Após o filme, uma mesa composta pelos prof. André Setaro (UFBA) e prof. Muniz Ferreira (UFBA), tendo o prof. Augusto Sá (F2J) como mediador, debaterá com o público presente a obra exibida. A atividade é gratuita e aberta ao público em geral.

sexta-feira, 12 de março de 2010

D E B A T E :

Filme: Cabra marcado para morrer
Diretor: Eduardo Coutinho
Gênero: Documentário
Origem: Brasil

MESA:
Debatedor: Prof. Dr. Antônio Câmara (UFBA)
Debatedor: Prof. Ms. André Holanda (F2J)
Mediador: Prof. Ms. Jorge Lisboa (F2J)

Local: Auditório Cefas Jatobá
Data : 17/março (4ª feira)
Hora : 19h00


BLOG: cineemdebatef2j.blogspot.com

P R O G R A M A Ç Ã O : 2010 - 1º semestre

País: Brasil
Filme: Um cabra marcado para morrer
Diretor: Eduardo Coutinho
Data: 17/mar

País: Argentina
Filme: Café dos maestros
Diretor: Miguel Kohan
Data: 10/abr

País: Chile
Filme: A batalha do Chile
Diretor: Patrício Guzmán
Data: POLICOM

País: Brasil/Cuba
Filme: Soy Cuba, o mamute siberiano
Diretor: Vicente Ferraz
Data: 01/jun

BLOG: cineemdebatef2j.blogspot.com


Augusto Sá,
Professor,
Coordenador Executivo
Cineclube Cine em Debate

Derval Gramacho,
Professor,
Coordenador
Curso de Comunicação Social
Faculdade 2 de Julho.

O cinema documentário na América Latina

Não são raros os depoimentos de brasileiros que só se reconheceram latino-americanos quando estavam vivendo na Europa. A “ideia” de América Latina é fruto da “invenção” ideológica de colonizadores e exploradores europeus, no século XIX, sobretudo pela França napoleônica, interessada em demarcar sua área de influência na América (latina), e pelo novo país americano, os Estados Unidos da América, que logo estabeleceu como legítimo no seu “destino manifesto” dominar os demais povos (“inferiores”) ao sul do rio Bravo, chamados latinos. O “destino manifesto” (“A pura raça anglo-americana está destinada a estender-se por todo o mundo com a força de um tufão. A raça hispano-mourisca será abatida”) logo mostrou a sua verdadeira face, quando os Estados Unidos, já tendo anexado o Texas em 1836, entraram em guerra contra o México (1846-48), usurpando metade do território do vizinho.

Partindo da “ideia” de América Latina, muitos de nossos intelectuais e líderes políticos deram ao conceito um caráter positivo. Simon Bolívar jurou, na Itália, lutar pela independência das colônias americanas a fim de criar a república da “Gran Colômbia”, que reuniria em seu território o que hoje pertence a vários países da América do Sul. José Martí, poeta e líder político cubano, pensou a “nuestra América” independente das potências européias decadentes, mas, também, livre do jugo imperialista da potência nascente do grande irmão do Norte. José Carlos Mariátegui, jornalista e militante político peruano, defendeu a Indo-América livre da dominação capitalista. Ernesto “Che” Guevara, argentino de nascimento, entregou a sua vida pela causa dos povos explorados da América Latina. Com passagem pela Guatemala, México e Cuba, onde participou da guerrilha que realizou a revolução de 1 de janeiro de 1959, “Che” foi dirigente do estado socialista cubano até entregar seus cargos e condecorações para embrenhar-se em uma nova guerrilha na selva boliviana, onde foi covardemente assassinado, em outubro de 1967, após ter sido ferido e encontrar-se preso.

Em livro recentemente publicado (Latino-americanos à procura de um lugar neste século. SP, Iluminuras, 2008.), o antropólogo argentino, radicado no México, Néstor Canclini, nos pergunta: quem somos nós, os latino-americanos? Esta resposta, creio, embora já tenha uma longa história, como vimos acima, está em construção e dela participam intelectuais, artistas, políticos e todos povos dos países ao sul do rio Bravo. Nós, do curso de Comunicação Social da Faculdade 2 de Julho, estamos dando nossa contribuição nesta discussão e na busca desta resposta. O III POLICOM (Congresso de Comunicação Social e Políticas Culturais) dedica-se ao documentário na América Latina, tendo como tema central: “Cartografia do documentário na América Latina”. O Cineclube Cine em Debate, acompanhando este esforço, vai na mesma direção e faz deste semestre um período dedicado à exibição e discussão do documentário na América Latina. Para isto, fomos buscar, em alguns dos principais países produtores, obras de excelência que enriquecem a produção do cinema documentário no mundo, bem como ampliam a esfera de nossa formação cultural.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Comemoração do II Congresso Nacional de Anistia

1979 – Fundação 2 de Julho – 2009.
Em 1979, após 15 anos de ditadura civil-militar, setores organizados da sociedade brasileira proclamavam a necessidade de uma anistia ampla, geral e irrestrita para os exilados, presos e perseguidos políticos pelo regime. Quatro anos antes deste movimento, o povo assumia, pela primeira vez, o protesto aberto contra o governo militar em face do assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-CODI paulista, em outubro de 1975. A população de São Paulo compareceu em massa ao culto ecumênico realizado na Catedral da Sé, presidido por diversos líderes religiosos, entre os quais se destacavam o cardeal dom Paulo Evaristo Arns e o pastor presbiteriano Jaime Wright, liderança inconteste da Fundação 2 de Julho.Em 28 de agosto de 1979, o governo militar, presidido pelo general João Batista Figueiredo, fez aprovar no Congresso Nacional uma anistia parcial e discriminatória que deixava de fora presos políticos como, por exemplo, o pernambucano radicado na Bahia Theodomiro Romeiro dos Santos. Esta lei concedia, a partir de 1º de novembro do mesmo ano, a liberdade a presos políticos e o direito de regressar ao País a centenas de cidadãos banidos e exilados arbitrariamente do País. No entanto, nada esclarecia sobre as mortes e os desaparecimentos de militantes políticos.De 15 a 18 de novembro daquele, em resposta à lei limitada, o Comitê Brasileiro pela Anistia realiza, em Salvador, o II Congresso Nacional pela Anistia. No entanto, os locais procurados para sediar o evento se recusavam, apesar até mesmo da intervenção do cardeal dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo primaz do Brasil. A Fundação 2 de Julho, que tem um compromisso permanente com os direitos humanos, e na época era presidida pelo professor Josué Mello, foi a única instituição que se dispôs a enfrentar a ditadura militar. Abriu suas portas ao Comitê e possibilitou a realização do congresso.A Fundação 2 de Julho continua na vanguarda da luta pelos Direitos Humanos no Brasil, e hoje tem a satisfação de celebrar os 30 anos deste marco histórico, o II Congresso Nacional pela Anistia, realizado em seu campus onde estão instalados o Colégio e a Faculdade 2 de Julho. Hoje, a instituição se mantém vigilante pela preservação e garantia dos direitos humanos através da Conferência Jaime Wright que instituiu, há cinco anos, o Prêmio Promotores da Paz e dos Direitos Humanos.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Outubro, de Eisenstein


O Cineclube Cine em Debate exibe hoje, dia 19/nov, às 19h00, no auditório Cefas Jatobá da Faculdade 2 de Julho, o filme Outubro, sob a direção do cineasta russo Sergei Eisenstein, considerado um dos ícones do cinema mundial e Outubro um entre os seus principais filmes. A película é de 1928, com roteiro de Eisenstein e G. Aleksandrov, baseado no livro “10 dias que abalaram o Mundo”, do jornalista e escritor norte-americano, John Reed, testemunha ocular dos episódios de que trata o livro, a Revolução Bolchevique na Rússia. O filme tem o objetivo de marcar as comemorações do 10º aniversário de passagem da Revolução Socialista de outubro de 1917 que derrubou o governo provisório de Kerensky. O filme contém um farto material da história política russa, foram feitas tomadas nos próprios locais onde os fatos ocorreram, como o Palácio de Inverno, e conta com a participação de gente do povo que realmente vivenciou aqueles epísódios.

Eisenstein é um cineasta conhecido pelas suas teorizações em torno da montagem no cinema. Segundo ele, “o music-hall e o circo constituem a escola para o montador”. Em Outubro deu os passos iniciais para o que chamou de “montagem intelectual”. Para ele a preocupação não deveria estar centrada na narrativa de histórias e sim na difusão de conceitos e ensaios logicamente formulados, esta era a forma que adotava na defesa do seu “cinema-discurso”. Eisenstein apoiava-se também no princípio de Maiakosvski de que “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”.

Nestes dias em que se registra a passagem de mais um aniversário da Revolução Bolchevique, que se aproxima do seu primeiro centenário, e do vigéssimo aniversário da derruba do Muro de Berlim, não há momento mais oportuno para se debater a importância histórica destes episódios e a herança deixada por eles para o mundo contemporâneo. Por outro lado, não há como se discutir cinema com seriedade sem levar em conta a contribuição teórica e fílmica de Sergei Eisenstein. É nesta perspectiva que o Cineclube Cine em Debate promove o debate em torno do filme Outubro, contando com a presença do professor Muniz Ferreira, do curso de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da professora Verbena Córdula, do curso de Comunicação Social da Faculdade 2 de Julho (F2J), como debatedores, e do professor Augusto Sá, do curso de Com. Social da Faculdade 2 de Julho (F2J), coordenador do Cineclube Cine em Debate, como mediador.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Carta de Tabor

Carta de Tabor

Cartas dos Direitos do Público


A Federação Internacional de Cineclubes (FICC), organização de defesa e desenvolvimento do cinema como meio cultural, presente em 75 países, é também a associação mais adequada para a organização do público receptor dos bens culturais audiovisuais.
Consciente das profundas mudanças no campo audiovisual, que geram uma desumanização total da comunicação, a Federação Internacional de Cineclubes, a partir de seu congresso realizado em Tabor (República Tcheca), aprovou por unanimidade um documento com o seguinte teor:

1. Toda pessoa tem direito a receber todas as informações e comunicações audiovisuais. Para tanto deve possuir os meios para expressar-se e tornar públicos seus próprios juízos e opiniões. Não pode haver humanização sem uma verdadeira comunicação.

2. O direito à arte, ao enriquecimento cultural e à capacidade de comunicação, fontes de toda transformação cultural e social, são direitos inalienáveis. Constituem a garantia de uma verdadeira compreensão entre os povos, a única via para evitar a guerra.

3. A formação do público é a condição fundamental, inclusive para os autores, para a criação de obras de qualidade. Só ela permite a expressão do individuo e da comunidade social.

4. Os direitos do público correspondem às aspirações e possibilidades de um desenvolvimento geral das faculdades criativas. As novas tecnologias devem ser utilizadas com este fim e não para a alienação dos espectadores.

5. Os espectadores têm o direito de organizar-se de maneira autônoma para a defesa de seus interesses, com o fim de alcançar este objetivo, e de sensibilizar o maior número de pessoas para as novas formas de expressão audiovisual, as associações de espectadores devem poder dispor de estruturas e meios postos à sua disposição pelas instituições públicas.

6. As associações de espectadores tem o direito de estar associadas à gestão e de participar na nomeação de responsáveis pelos organismos públicos de produção e distribuição de espetáculos, assim como dos meios de informação públicos.

7. Público, autores e obras não podem ser utilizados, sem seu consentimento, para fins políticos, comerciais ou outros. Em casos de instrumentalização ou abuso, as organizações de espectadores terão direito de exigir retificações públicas e indenizações.

8. O público tem direito a uma informação correta. Por isso, repele qualquer tipo de censura ou manipulação, e se organizará para fazer respeitar, em todos os meios de comunicação, a pluralidade de opiniões como expressão do respeito aos interesses do público e seu enriquecimento cultural.

9. Diante da universalização da difusão informativa e do espetáculo, as organizações do público se unirão e trabalharão conjuntamente no plano internacional.

10. As associações de espectadores reivindicam a organização de pesquisas sobre as necessidades e evolução cultural do público. No sentido contrário, opõem-se aos estudos com objetivos mercantis, tais como pesquisas de índices de audiência e aceitação.

Tabor, 18 de setembro de 1987.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

AKIRA KUROSAWA: Um cinema de síntese

Por ANDRÉ SETARO (Especial para o Cine em Debate)

Akira Kurosawa (1910/1998), realizador de Dersu Uzala (1975), é o cineasta japonês mais conhecido no Ocidente, cuja revelação se dá em Rashomon, quando o apresenta no Festival de Veneza de 1951, quase dez anos depois do seu primeiro filme, Sugata Sanshiro, em 1943, e de muitos títulos já registrados em sua filmografia. Nesta obra-prima, que é Rashomon, há uma atmosfera de fábula medieval, e a sua estrutura narrativa se caracteriza pela construção em flash-backs a apresentar o mesmo acontecimento de acordo com os pontos de vista subjetivos de vários narradores - o que evoca o genial dramaturgo italiano Luigi Pirandello.

Entre as características formais de Kurosawa, destaca-se um sentido rítmico muito pessoal, desligado das tradições teatrais nipônicas, mas não identificado exatamente com as ocidentais contemporâneas. Também é singular a dureza de seus enquadramentos (o que se pode verificar em Dersu Uzala), que corresponde à sua formação pictórica, o cuidado na direção dos atores e a facilidade com que incursiona, sem temor, no caminho da síntese em que o plástico, o sociológico e o psicológico chegam, sem obstáculo, a um ponto de fusão. Dotado de uma violência quase congênita e de uma técnica bem assimilada em sua fase de assistente de grandes cineastas japoneses, Kurosawa representa, para o cinema nipônico, o grande relevo da formação clássica, presidida pela figura de Kenzi Mizoguchi (Contos da lua vaga) . Universal em sua linguagem, embora sem a perda das características de sua cultura, influi poderosamente no cinema de autores dos anos 50 e 60 de seu páis, aos quais abre as portas do realismo contemporâneo.

No início de sua carreira, realiza três obras fundamentais, uma trilogia que constitui uma paradoxal elegia de uma civilização: O anjo embriagado (Yoidore Tenshi, 1948) - história das relações entre um médico e um gangster tuberculoso, e que assinala o começo de uma larga e fecunda colaboração com o ator Toshiro Mifune (com o qual faria o célebre Os 7 samurais), Cão Danado (Nora-iu, 1949) - descrição de todo um meio social através da busca de um detetive para recuperar o seu revólver roubado (e não estaria aqui a sofrer influência de Ladrões de bicicletas/Ladri di biclette, 1948, de Vittorio De Sica, obra-prima do neorrealismo italiano?), e especialmente Viver (Ikiru, 1953) - sobre os últimos dias de um velho funcionário público (que muitos historiadores consideram a sua obra mestra).

Kurosawa, através de Hakuchi, o idiota (Hakuchi, 1951), adaptação de Fiodor Dostoievsky), introduz sutilmente a cultura europeia no cinema japonês. Admirador de William Shakespeare, realiza adaptações admiráveis, entre as quais estão Trono manchado de sangue (segundo o texto shakespeariano de MacBeth), Ran (baseado em Rei Lear), entre outras. Em 1970, angustiado por não receber recursos para terminar um filme, tenta se suicidar, mas consegue sobreviver com a ajuda de produtores americanos.

Dersu Uzala é da fase em que o grande mestre se afasta do Japão, nos anos 70, à procura de uma inspiração exterior. Mas suas constantes temáticas e estilísticas estão presentes neste admirável filme sobre o homem e a natureza e o choque de culturas.

Dersu Uzala, uma obra notável

O crítico de cinema, mais conhecido como poeta Vinicius de Moraes, ao assistir Hiroshima, mon amour, nos seus últimos dias de dipolmata no Uruguai, servindo no consulado brasileiro em Montevidéu, classificou o filme como uma “obra-prima” e o chamou de “um maravilhoso canto à paz”. Não satisfeito, o poetinha comparou-o a três outras grandes obras-primas do cinema: Aurora, de Murnau; Cidadão Kane, de Orson Welles ( este é o próximo filme a ser exibido pelo Cineclube Cine em Debate, em outubro); e, por fim, Rashomon, de Akira Kurosawa. Vinicius não conhecia Dersu Uzala, também de Kurosawa, pelo simples fato de que o diretor ainda não o tinha filmado. Dersu é de 1975 e a crônica do poetinha de 1960, portanto, bem antes. Se o poeta tivesse visto, naquela época, Dersu Uzala, bem que poderia também ter classificado esta “obra-prima” de Akira como “um maravilhoso canto à paz”.


Mas, Dersu Uzala, um dos mais notáveis filmes de Kurosawa, este diretor que durante 50 anos fez o mundo refletir a partir de sua perspectiva cinematográfica, não foi filmado no Japão e nem é uma produção japonesa. Se o cinema japonês se tornou conhecido no mundo inteiro o Japão deve isto a Kurosawa, embora não o reconheça. Dersu é uma produção soviética (antiga URSS), com locações na Sibéria e em Moscou, pois o Japão não queria financiar, sob alegação de sua ocidentalização, o diretor de obras que marcam a história do cinema, tais como Os sete samurais, Sonhos, Kagemusha, Rashomon, entre outras de menor repercussão.


Dersu Uzala é um filme dirigido com extrema sensibilidade, com uma câmera sutil de quem olha com o olhar da admiração, buscando compeender o que está vendo, mas sem querer alterar o que presencia, apenas admira. Dersu é uma produção de delicadezas, uma elegia à amizade, uma declaração de respeito à diferença. Dersu Uzala é muito mais ainda, é principalmente a convicção de que o homem, ao contrário do que pensa a Academia na visão dicotômica entre sujeito e objeto, é apenas parte da natureza. Pensamos o mundo a partir da contradição cultura x natureza. Está passando da hora do homem rever o paradigma onde a sua afirmação apresenta-se não como convivência harmônica com a natureza, mas como sua capacidade de transformar esta natureza ao seu bel prazer e, normalmente, esta transformação vem mediada pelos “interesses materiais” e não exatamente pelo prazer ou pela felicidade humana.


A recepção de Dersu Uzala, exibido na quarta-feira passada, foi das melhores. O auditório estava cheio e o debate contou com a contribuição do crítico de cinema e professor André Setaro (UFBA), dos professores Ivan Gargur e Daniela Souza (mediadora), ambos da Faculdade 2 de Julho (F2J).

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dersu Uzala - Debate


Logo após a exibição, o Cineclube Cine em Debate promove um debate sobre o filme Dersu Uzala contando com a presença do professor da UFBA e crítico de cinema, André Setaro, e do professor Ivan Gargur, da F2J. O debate será mediado pela professora Daniela Souza, também da F2J.

Filme: Dersu Uzala
Diretor: Akira Kurosawa
Local: Auditório Cefas Jatobá - F2J
Dia: 23/set (4ª feira)
Hora: 19h00

Dersu Uzala, um filme de Akira Kurosawa


Dando continuidade à programação do semestre, "grandes diretores do cinema", o Cineclube Cine em Debate apresenta em setembro o diretor japonês Akira Kurosawa. Akira deixou uma vasta obra com inúmeros filmes que são hoje reconhecidos como clássicos do cinema internacional, Os sete samurais, Sonhos, Dersu Uzala, entre outros.

Dersu Uzala foi o filme escolhido e será exibido nesta semana. O filme é de 1975, baseado no romance de Vladimir Arsenyev, tendo Kurosawa na direção e no roteiro. Dersu é um camponês mongol que atua como guia de um oficial do exército russo em viagem de exploração na Sibéria. Dersu Uzala salva o militar da morte certa no frio siberiano e este, num gesto de agradecimento, o leva para a cidade. A vida de Dersu vira um transtorno, o choque cultural é imenso, ele não se adapta à vida na cidade, muito diferente do contato direto com a natureza. A luta pela sobrevivência, enfrentando um dos ambientes mais hostis do planeta, possibilita a Kurosawa dirigir algumas das cenas mais bonitas do cinema.



domingo, 20 de setembro de 2009

O Cineclube Cine em Debate participa da 36ª Jornada de Cinema da Bahia

Entre os dias 10 e 17 de setembro aconteceu em Salvador a 36ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, com atividades no ICBA, no Espaço de Cinema Glauber Rocha, na sala Walter da Silveira (Biblioteca Central da Bahia) e no hotel Sol Victória Marina, onde se realizaram as reuniões.

A Jornada deste ano foi dedicada ao jornalista, sociólogo, engenheiro e escritor brasileiro Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha (Euclydes da Cunha), autor de Os sertões, entre outras obras, quando se comemora o centenário de sua trágica morte, ocorrida numa luta com o tenente Dilermando de Assis, amante de sua esposa. O outro homenageado será o cineasta Roberto Rossellini, considerado o fundador do neo-realismo italiano, que terá suas principais obras cinematográficas exibidas na Jornada.

A programação se completou com o concurso de filmes e vídeos afro-iberoamericanos, uma programação de filmes baianos e uma mostra da produção cineclubista baiana. Os cineclubes baianos, além da mostra audiovisual, fizeram reunião nos dias 15 e 16 tendo como pontos centrais da pauta o direito do público a ver a diversidade das produções audiovisuais brasileiras, bem como a produção mundial não hegemônica, e a se ver na tela, além da organização em uma Federação que inclua os cineclubes da Bahia e de Sergipe. No dia 17 os cineclubes se reuniram com os cineastas independentes, um encontro de quem cria com o público, através dos cineclubes.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Amarcord


Amarcord é um dos principais filmes dirigido pelo cineasta italiano Federico Fellini. É uma produção franco-italiana, de 1973. O título Amarcord é uma referência à tradução fonética da expressão io me ricordo (eu me lembro), usada na região onde o diretor nasceu. O cineasta baiano, Edgard Navarro, deu ao seu primeiro longa-metragem, ganhador de 7 candangos no Festival de Brasília, o título de Eu me lembro, numa clara referência à Fellini. Amarcord venceu o Oscar (EUA) de 1975, na categoria de melhor filme estrangeiro. Nesta mesma categoria e ano foi indicado ao Globo de Ouro (EUA). Em 1976, foi novamente indicado ao Oscar nas categorias de melhor diretor e melhor roteiro original. Venceu nas categorias de melhor diretor e melhor filme no Festival David di Donatello, na Itália, em 1974, e venceu na categoria de melhor filme europeu no Prêmio Bodil, da Dinamarca, em 1975.
A direção de Amarcord é de Fellini, o roteiro é dele e de Tonino Guerra, e a trilha sonora é de Nino Rota. No elenco estão Pupella Maggio, Armando Brancia, Magali Noël e Bruno Zanin.